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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Se um psicólogo tivesse direito de opinião...

Ela entra, buscando o alívio que pagou para receber. Senta-se no divã próximo a janela com cortinas beges e espera até que o seu ouvido de aluguel acomode-se próximo a ela.
Ele se aproxima aguardando uma história diferente, mas que talvez tivesse uma mesma solução de todas as outras, mas escuta com atenção.
- Eu tive uma vida, acredito que, diferente. Desde criança, já trabalhava pra suprir meus caprichos, pois meu pai me prometeu o alimento, mas outras coisas eu devia com meu dinheiro suster. Quando conheci meu marido, abri mão de muitas coisas pra ficar com ele, não dei ouvidos a minha mãe, pois ela disse que essa decisão não seria boa pra mim. Sabe, depois de casados, sempre eu quem me arriscava ele não fazia nada por nada... Me desgastei, construímos nossa casa com as nossas mãos... – A cada palavra que ele ouvia ela ia tomando mais idade, a pele parecia envelhecer. – Sete anos de tratamento para meu primeiro filho, pois eu não podia engravidar, mas ele nasceu e como era de se esperar o pai não era presente. Três meses depois outra gravidez e ele tendo que viajar a trabalho. Prometeu que eu terminaria meus estudos, mas por fim ele concluiu os dele e eu em segundo plano. Anos depois outra gravidez e eu novamente sem suporte algum... – Ela continuava a contar a história sempre num tom rancoroso, as palavras pareciam doer. - Meus filhos hoje não dão valor a tudo o que eu desisti pra cria-los, eu com as forças que tinha, sobrevivi a uma doença horrível pra cria-los, mas agora vivo numa casa de ingratos, são desistentes, são fracos! Nada do que eu faço que é muito, esta bom. Ninguém agradece pelo que faço. Me chamam de controladora, possessiva, que reclamo de tudo, mas suportei muita coisa na vida e não tenho apoio de lado nenhum...  – ela continuou a falar, até que se sentou e o fitou.
Ele não pode se conter e olhou profundamente em seus olhos e disse:
- Sabe... Muitas pessoas veem aqui com suas histórias, seus problemas grandes ou pequenos. Eles pagam para que eu os escute, mas na verdade eu gostaria de falar. – suspirou – Eu realmente queria te apoiar, sua história é difícil, mas você já parou para pensar que sua vida inteira é baseada nas suas próprias escolhas? Você abriu mão de muita coisa para criar uma vida com seu marido, 32 anos! Você agora o culpa por ser quem ele era desde o começo, preste atenção nos fatos... Você não ouviu sua mãe como mesmo disse, mas você decidiu se unir a ele por conta de seu amor, e não adianta dizer que amor não existia na sua união, pois existia sim, se não, você não teria até feito tratamento pra ter filhos dele. Não exija das pessoas o que elas não podem te dar! Seus filhos eram sua obrigação até completarem maior idade, se agora já passaram dessa idade, não adianta nada você cobrar que eles sejam gratos a você, pois gratidão é de natureza. Se você cobra que eles sejam gratos a você, por tudo o que você fez, nem você mesma fez de coração.
“ Todo o seu esforço pode ter sido em vão, porque quando se faz algo por amor, não se espera agradecimento, só espera que isso tudo flua como tem que fluir. Você tem que deixar que eles percebam o que fez por eles, sem que você jogue em cima de uma mesa seus “grandes feitos”. A sua vida foi difícil, mas as escolhas para tudo foram suas e você tem que saber aceitar isso. Claro que todos precisam de apoio, agora você tem 53 anos e tem que saber que tudo o que fez foi algo bom, mas você não recebera isso se pedir por isso. A vida pode parecer injusta nesse ponto, mas pense pelo lado que você foi injusta com você mesma a vida inteira esperando que alguma coisa mudasse sendo que quem podia começar a mudança era você.”
Ele fechou os olhos e suspirou. Ao fitar novamente a figura no divã, se deparou com uma mulher pálida, com o olhar afixado no chão, não rancorosa, mas cheia de medos. 
Ela deu o suspiro mais fundo que pode dar, levantou seus olhos úmidos e em seu rosto já marcado pela idade surgiu um sorriso sincero de agradecimento e se pôs de pé para ir embora.
Ele ao observar as costas dela saindo pela sala, perguntou-se se tinha feito a coisa certa. Não sabia exatamente, mas pelo menos um dia na vida fez algo que não se arrependerá depois.

3 comentários:

  1. Nossa, esse texto é muito bom. E reflexivo demais. Não adianta mesmo ficar à espera de gratidão. E realmente nós fazemos as nossas escolhas. Amei muito esse texto <3.

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    1. Eu fiquei dias esperando que alguém comentasse nele. As vezes eu me sinto como esse psicólogo, sem poder responder ao que as pessoas falam pra mim, mas num suspiro acabei dizendo tudo o que queria. Fico muito feliz que leu e mais ainda que gostou <3

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  2. Ah, e o título fico fantástico!

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